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Samedi 23 Septembre 2017
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Morreu o homem mais rico de Portugal. Era o rei da cortiça

Américo Amorim 1934-2017: como o rapaz que gostava de geografia se transformou no empresário mais rico do país. Faleceu esta quinta-feira Américo Amorim, a poucos dias de celebrar 83 anos, um ano depois de ter vencido no hospital a primeira luta contra a morte. A sua fortuna era avaliada em 3,9 mil milhões de euros.
Por Abílio Ferreira, Expresso

Retour au début  Além de Rei da cortiça,:

Nos negócios, Américo Ferreira Amorim, que a 21 de julho completaria 83 anos, decidia com o lado racional, o coração do lado direito. Esta manhã o coração do lado esquerdo traiu-o, um ano depois de ter abandonado funções executivas e ter transferido o poder nas empresas para a filha Paula.

Em março de 2016, Américo Amorim fora internado de urgência e teve de lutar conta a bactéria hospitalar que, após uma intervenção na década passada na Alemanha, se alojara no coração. Dessa vez saiu vencedor, instalou um pequeno hospitalar na moradia no Porto, aumentou o grau de vigilância e encetou uma recuperação gradual que lhe permitiu voltar a sair de casa e a visitas rápidas à Corticeira. Mas, a sua energia e vivacidade ficaram afetadas. Em outubro, abdicava formalmente de funções executivas, reconhecia que não era eterno e formalizava uma transição geracional suave e pacífica na condução do conglomerado. Nas últimas semanas, o estado de saúde agravou-se, levando a família a impedir a visitas dos amigos mais próximos.

Costumava dizer que nos negócios decidia com o coração do lado direito para vincar que a racionalidade da decisão não era afetada pelo seu lado emocional e romântico. Esta manhã foi traído pelo coração, após uma carreira notável no mundo das empresas e um notável legado empreendedor.
Cortiça e banca

Na história empresarial ficará sempre como o rei da cortiça, mas teve sempre um pé na banca e ligado a alguns dos maiores negócios ds últimas décadas., como a fundação do BCP ou Telecel (Vodafone Portugal) ou privatização da Galp.

Como herdeiras, Paula, Marta e Luísa partilharão o conglomerado empresarial. "A sintonia entre as irmãs é perfeita, a coesão familiar nunca estará em causa", asseguram amigos da família. As três irmãs diretamente, ou através dos maridos, já estavam representadas nas principais empresas do universo Américo Amorim. Por exemplo, na Galp, o dossiê mais delicado e complexo, o genro Francisco Rego, com um carreira ligada à energia, sempre funcionara como seu braço direito. Francisco transferiu-se da Sodesa, uma parceria Sonae/Endesa pouco tempo depois do casamento com Luísa, a mais expansiva e guerreiras das filhas. Um outro genro, Nuno Barroca, é o representante histórico na Corticeira, dirigida por António Rios Amorim, sobrinho de Américo.

Os cálculos, neste caso, estarão certos. Américo Ferreira Amorim foi, seguramente, o homem mais rico de Portugal mas é redutor e injusto valorizar excessivamente esse estatuto e ofuscar uma brilhante carreira de 66 anos como empresário, desdobrando-se em iniciativas pioneiras e investimentos arrojados.

A sua fortuna garantiu-lhe todos os anos um lugar no top 500 dos mais ricos do mundo. Na edição de 2017 da Forbes, surgia no 385º lugar, avaliado em 3,9 mil milhões de euros (reforço de 280 milhões face ao ano anterior), superando na fortuna celebridades como Donald Trump (3,1 mil milhões) que caiu 35 posições.

Segundo o último ranking da revista Exame (2016), a sua fortuna está avaliada em 3,071 mil milhões (um reforço de 587 milhões face à lista anterior), a uma distância de 1000 milhões do vice-campeão Alexandre Soares dos Santos (2,078 mil milhões)

Se há conclusão que se pode retirar da carreira que conduziu Américo Amorim ao homem mais rico de Portugal é que a ele se aplicava a reflexão de António Champalimud de que na vida, "tudo se compra e tudo se vende, menos a honra". No caso de Amorim, nem a honra nem a cortiça, o berço simbólico e sentimental com que embalou um conglomerado global, a partir de uma herança de 2,5% de uma fábrica de rolhas fundada pelo avô. A cortiça e banca foram as suas grandes paixões.
Galp, Corticeira e fazendas

Com uma fortuna avaliada pela Forbes em 3,9 mil milhões, Amorim garantia todos os anos um lugar no top 500 dos bilionários. Galp, bancos e projetos turísticos e agrícolas em Moçambique e Brasil, fazendas, herdades e florestas eram os ativos mais valiosos de uma fortuna que não era de cortiça e sempre resistiu a adversidades conjunturais.

O universo Américo Amorim está organizado em seis áreas de negócio (cortiça, floresta, energia, sector financeiro, imobiliário e luxo), operando nos cinco continentes. A joia mais valiosa é a participação na Galp (18,4%) e da sua evolução bolsista (valor atual de 10,1 mil milhões) depende em boa parte o cálculo do seu património. Na cortiça, detém 45% da Corticeira, avaliada pelo mercado em 1,65 mil milhões.

Na finança, depois de deixar a parceria com Isabel dos Santos no BIC, está focado no Banco Luso-Brasileiro (47%) e Banco Único (18%), em Moçambique e uma participação residual no Popular.

Fascinado por "paisagens paradisíacas", Amorim concentrou no nordeste brasileiro os maiores investimentos no imobiliário turístico-imobiliário. Desenvolveu dois projetos no estado da Baía, um na Praia do Forte, com 110 hectares e 1,6 km de frente de mar e outro em Maraú, 25000 hectares, 30 milhões m2 de construção e 9,6 km de frente de praia. É o maior projeto turístico do nordeste do país, com três hotéis, 395 moradias, 1116 apartamentos, oito quintas na mata atlântica, quatro zonas comerciais e campos de golfe e polo. O custo global, em várias fases, ficará nos 300 milhões.

O negócio da natureza (floresta e agricultura) combina o polo do Douro, com vinho, olival e duas quintas (300 hectares) com a natureza alentejana. No Alentejo, alia "muitos milhares de hectares" e um milhão de sobreiros com a produção agrícola, olivicultura criação de gado e caça. Na Herdade do Peral, a maior coutada de caça do país (5500 hectares), corre leite e mel e pratica-se turismo ecológico no hotel rural Monte da Figueira.

Nos últimos anos, a vocação agrícola ganhou uma frente externa. Em Moçambique, participa no consórcio que desenvolve um projeto agrícola de grande dimensão na Zambézia, 17 mil hectares de cultura de soja, arroz e feijão. Na fazenda do litoral da Baía é dono de um extenso coqueiral com 700 hectares de área, 120 mil pés de coqueiros e uma produção anual de 10 milhões de cocos.
Sucessão definida

Após a reorganização da Amorim-Investimentos e Participações (2005) que partilhava com os irmãos, Américo concentrou a gestão dos seus negócios pessoais numa nova sociedade Amorim Holding II. A transição de poder ficou decidida em setembro, seguindo o critério da idade. Paula, a filha mais velha e Jorge Seabra, um executivo que se iniciou no grupo e regresso como braço direito de Amorim depois de relançar a Coelima.

Marta é vogal, tal como Francisco Rego, casada com a filha Luísa, que se dedica à gestão da Quinta Nova, a empresa de vinhos e enoturismo do Douro. Depois do segundo casamento, com Miguel Guedes de Sousa (um gestor ligado ao negócio hoteleiro e ao fundo Explorer), Paula divide-se entre Cascais e o Porto e mantém uma agenda própria centrada na moda, gerindo a cadeia Fashion Clinic e a loja Gucci. Miguel Guedes de Sousa tem permanecido até agora afastado dos negócios da família Amorim, mas no futuro poderá ter uma participação ativa na gestão.
Herança de 2,5% de uma fábrica de rolhas

A partir de uma herança de 2,5% de uma fábrica de rolhas fundada pelo avô e um hectare de terreno em Mozelos, no concelho da Feira, Américo Amorim construiu um conglomerado corticeiro que atingiu a liderança mundial, esteve na fundação da Telecel (hoje Vodafone) de bancos como o BCP ou BNC (absorvido pelo Banco Popular) ou o angolano BIC, falhou a privatização do Banco Fomento Exterior (BPI), firmou parcerias com grupos e empresários de todo o mundo e criou e vendeu empresas a um ritmo vertiginoso com o talento de quem antecipa sempre as tendências dos mercados. Mas nos negócios a cortiça e a banca eram as duas grandes paixões. Não escapou, todavia, à armadilha do papel comercial da família Espírito Santo (de quem era amigo e aliado), aplicando 180 milhões em empresas do GES declaradas falidas. No Banco Popular, resgatado recentemente pelo Santander, chegou a ter mais de 7%. Mas foi reduzindo até ficar com uma posição residual, em 2013. Saiu a tempo e com ganhos.

Atravessou os períodos conturbados com uma pragmatismo imbatível, revelando um raro talento de negociador, um faro político apurado para não hostilizar os regimes com que lidava. Na década de 1960 o grupo Amorim já era o maior exportador português para os mercados da Cortina de Ferro, a partir de uma plataforma instalada em Viena. A base servia para vender para a China, Índia ou países árabes, com quem Portugal não tinha relações diplomáticas.

Desenvencilhou-se das restrições do regime de Salazar, mas nunca investiu nas colónias, e soube negociar com as cooperativas comunistas no Alentejo o fornecimento nos anos pós 25 de Abril, apesar de herdades suas terem sido ocupadas. Aproveitou o rescaldo do movimento revolucionário (1975/76) para comprar ao desbarato herdades no Alentejo de famílias em pânico.

Houve dois negócios que simbolizaram bem a mudança do centro de gravidade da economia por via das nacionalizações em 1975 e a emergência de um novo capital no norte ocupando o espaço do velho dinheiro das famílias lisboetas. Amorim comprou a Miguel Quina o palacete, no Porto, para sua residência principal e a Jorge de Mello a quinta do Peral, no Alentejo. Conta-se que aquando da transação do Peral (1983) Jorge de Mello referiu-se ao comprador como o "homem mais rico do Portugal". E desabafou: "Eu sei o que isso é, porque já fui o mais rico".
Símbolo do capitalismo democrático

Tornou-se num dos símbolos do capitalismo democrático e um exemplo de um capitalista com capital, combinando uma dose de ousadia, duas de visão estratégica, condimentando a receita com um raro faro para os negócios e uma obsessão pelo controlo de gastos. Potenciou a fortuna através de uma rotação de ativos virtuosa (vendeu a Amorim Imobiliária no pico por 520 milhões). Mas, a origem desta história feliz esteve na cortiça, o negócio que permanece na família desde 1870.

Questionado (2011) sobre um hipotético imposto especial sobre as grandes fortunas, responderia: “Eu não me considero rico”, acrescentando. “Sou um simples trabalhador”. No seu depoimento para "Os grandes patrões da indústria" (Filomena Mónica) desabafou. "Não tenho qualquer problema em falar e jantar com os comunistas. Podemos mesmo ir a boites juntos, não me faz qualquer impressão".

"A democracia é o regime legítimo para qualquer empresário", é a frase que resume o seu ideário político.

Três frases balizam uma vida consagrada a criar riqueza e a potenciar negócios e empresas. "Tive a teimosia de não me confinar ao espaço estrito que herdei"; "Não tem empresas quem quer, mas quem tem a vontade e a capacidade para tal” e “O meu descanso é trabalho, o meu prazer é investir".
O fascínio das viagens

Este quinto filho de uma família remediada e numerosa (oito filhos), que só teve o primeiro par de sapatos quando completou a 4ª classe, transformou-se no rapaz atraído pela geografia e apaixonado por viagens, evoluindo depois para empresário com olho para o negócio, que antecipou a globalização a economia e cavalgou como poucos a euforia que contagiou Portugal na fase de adesão à CEE.

Mal terminou o Curso Geral do Comércio, ingressou na empresa de rolhas da família, fundada pelo avô (1870). Com os seus irmãos, participou na fundação da Corticeira Amorim, a holding que agrupa todos os negócios da fileira da cortiça. Com a ajuda do tio Henrique que não deixou descendentes e transações com os primos (1977) os irmãos Amorim tornaram-se únicos donos da Corticeira. Hoje, a holding é partilhada pelas famílias de António e Américo.

A vida e as viagens foram a sua universidade. Não ficou com saudades da escola, era um homem talhado para a ação. "Estudar é um bem precioso, mas o contacto com o mundo, com a diversidade dos continentes, a análise dos países, das culturas dos povos, a vivência de valores, dos seus hábitos, é um enriquecimento enorme, não há universidade que o substitua", costumava dizer. "Quanto tenho uma ideia é difícil fazerem-me parar", reconhecia.

No seu currículo empresarial surgiu a mancha da suspeita de fraude na aplicação de meio milhão de contos (2,5 milhões de euros) do Fundo Social Europeu (2000). Manobras processuais levaram à prescrição do processo, arquivado 11 anos depois. Duas empresas do universo Amorim integraram a lista das 51 sociedades que utilizaram esquemas de fuga ao fisco e pagaram, no âmbito da operação Furacão, 3,7 sociedades que utilizaram esquemas de fuga ao fisco e pagaram 3,7 milhões de euros para regularizar a situação fiscal.

Le: 14/07/2017 06:53:51
  D.Ribeiro

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