• Redaction Radio ALFA
Mardi 30 Mai 2017
  Informations

Violência nos subúrbios irrompe na campanha presidencial francesa

A pouco mais de dois meses da primeira volta das presidenciais, a tensão nos subúrbios das grandes cidades impõe-se como tema quente da campanha eleitoral depois de um novo episódio de alegados racismo e extrema violência policial. Mas os candidatos não parecem muito inclinados para discutir este real problema francês de fundo.
Adaptação de um artigo do semanário Expresso. Por Daniel Ribeiro

Retour au début  Caso Théo:

A violência regressou à atualidade depois de ter derrapado (na quinta-feira, 2) um controlo de identidade de uma dezena de jovens da chamada “cité des 3000”, um bairro desfavorecido de Aulnay-sous-bois, nos arredores de Paris.

A operação policial correu mal e um dos jovens, Théo, de 22 anos e de origem africana, teve de ser internado num hospital (foto) por estar a sangrar do ânus – disse que fora violado voluntariamente com uma matraca por um dos quatro agentes envolvidos. Acrescentou que ele lhe bateu ainda “ferozmente” enquanto o insultava com frases racistas. “O que me fizeram marcou-me para a vida, não consigo mexer-me nem dormir, mesmo com os comprimidos”, explicou Théo ao canal televisivo BFM numa das poucas entrevistas que deu.

Exames médicos confirmariam ferimentos com 10 centímetros de profundidade na zona retal e Théo foi operado de urgência, bem como colocado em baixa médica durante 60 dias. Os agentes, que foram suspensos e ficaram sob controlo judicial por suspeita de “violência agravada”, desmentem a versão do jovem. Dizem que foi ele que resistiu e começou por os agredir, que a alegada violação foi involuntária e que as suas calças caíram durante a refrega. Um relatório preliminar da investigação da “polícia das polícias” aponta no mesmo sentido: para uma “penetração acidental” da matraca no ânus.

Nove dias depois, o jovem ainda continuava hospitalizado e, depois de ter recebido a visita do presidente François Hollande, apelou à calma, tal como fez também a sua família mais próxima. Mas estes apelos não foram ouvidos porque desde há uma semana que se verificam todos os dias incidentes, incêndios de automóveis, confrontos com a polícia e manifestações nesta cidade e noutras, como em Paris, Lille, Nantes e Rennes.

Com exceção da candidata nacionalista às presidenciais, Marine le Pen, praticamente todos os outros concorrentes ao Eliseu apoiaram Théo. François Hollande prometeu que a Justiça iria “até ao fim na busca da verdade”. Já Marine le Pen, que continua à frente nas intenções de voto para a primeira volta marcada para 23 de abril, foi mais cautelosa e apelou à prudência antes de serem avançadas “acusações definitivas” contra a polícia. “Apoio as forças policiais, salvo se a Justiça demonstrar que os agentes cometeram um crime”, explicou a líder da Frente Nacional.

Este episódio de violência extrema realça que os focos de tensão nos subúrbios desfavorecidos das grandes cidades persistem, apesar das promessas feitas pelos políticos designadamente em 2005, quando Paris e outras cidades estiveram cercadas durante um mês por distúrbios e incêndios naquilo que ficou conhecido como “a revolta das banlieues”. A onda de cólera que eclodiu depois do internamento de Théo já levou à detenção de dezenas de jovens, incluindo em Clichy-sous-bois, localidade que foi o epicentro dos acontecimentos de há 12 anos, na altura provocados pela morte de dois rapazes quando fugiam à polícia. As autoridades receiam agora a repetição dessa revolta e apelam à calma, como fez nesta quinta-feira, 9, o presidente da Câmara de Aulnay-sous-bois, Bruno Beschizza, que salientou o clima tenso que se vive na sua cidade.

A situação nos subúrbios ainda não tinha aparecido na campanha eleitoral mas, com o “caso Théo”, surgiu repentinamente em primeiro plano. “Há um problema de desigualdade em todos os domínios dos serviços públicos, que persiste, entre as periferias e os centros das cidades, a exasperação dos habitantes e os falhanços dos poderes públicos nestas zonas continuam, os problemas são os mesmos que existiam há 12 anos”, explica Marie-Hélène Bacqué, socióloga e urbanista.

O problema é que nenhum dos candidatos à presidência parece muito interessado em aprofundar este debate sobre um assunto que parece insolúvel. Ocupados sobretudo com as curvas das sondagens e os “empregos fictícios” da família de François Fillon, parecem pouco inclinados para discutir questões de fundo.

Le: 11/02/2017 06:57:37
  D.Ribeiro

 Extrait(s) sonores trouvé(s)

Aucun extrait trouvé pour cet article